“A Natureza não vota, mas, nosso futuro depende de nossas escolhas”, é o lema de um movimento que se iniciou no Brasil, liderado pelo conceituado e premiado biólogo, Dr. Geraldo Majela, de Minas Gerais. Ele lembra, logo na primeira mensagem, o quanto tem custado caro a falta de um desenvolvimento que leve em conta o respeito ao equilíbrio ambiental. O desdém a esse respeito tem sido responsável por uma conta milionária em nossa economia.
Temos nas enchentes bons exemplos do custo do descaso ambiental no Vale do Itajaí, aqui em Santa Catarina. Elas sempre aconteceram na região, desde tempos imemoriais. Acontece que após as catastróficas cheias de 1983 e 1984, duas das quatro maiores da história, a dra. Beate Frank, da Universidade Regional de Blumenau, elaborou um importante estudo que demonstrou em gráfico a clara correlação entre o avanço histórico do desmatamento no vale e o aumento da frequência de enchentes. Do primeiro ao terceiro cinquentenário da história regional a quantidade de enchentes simplesmente triplicou.
Não há problema que mais aflige a população e a economia do vale que as enchentes periódicas. Problema que tem sido fortemente agravado pela ação humana por meio dos desmatamentos e das ocupações desordenadas do solo e que exemplifica claramente o quanto o descaso ambiental implica prejuízos vultosos e de toda a sorte para a sociedade.
Não se questiona aqui os desmatamentos para a ocupação de espaços pelo ser humano moderno. O que se questiona foi a forma brutal e irracional como esse desmatamento aconteceu na nossa realidade histórica.
No Vale do Itajaí, 66 % das terras não têm vocação agrícola. São, portanto, áreas que até podem ter algum uso econômico seletivo e controlado, mas, que devem ser mantidas prioritariamente com cobertura florestal, preferentemente nativa, que são as que melhor funcionam como gigantesca esponja que absorvem o excesso de chuva, liberando depois as águas lentamente.
Com florestas conservadas, amenizam-se tanto as cheias em períodos muito chuvosos como também as secas em períodos de grande estiagem. Duplo serviço ecossistêmico, dentre vários outros sobejamente conhecidos.
De 34 anos para cá, com a proibição do corte da Mata Atlântica e com o abandono das terras declivosas, sem vocação agrícola, as florestas têm se recuperado rapidamente no vale, a ponto de, aparentemente, já estar ocorrendo a diminuição da frequência das enchentes. E podemos ir além. Esse conjunto de florestas, bem preservado e bem administrado pode reter, sozinhos, uma quantidade de águas das chuvas igual ou até maior que a capacidade somada de retenção das três enormes barragens de contenção de enchentes construídas no vale do Itajaí!
Da boca de quantos políticos ou detentores de cargo público já saiu alguma referência a esse, que é apenas um dos serviços ecossistêmicos das florestas? Quase nenhuma. No nosso mundo antropocêntrico, que ignora que somos parte, e não à parte da Natureza, apenas se fala de dispendiosas obras estruturais. É barragem para cá, dragagem para lá, retificação acolá, como se apenas isso resolvesse o problema das enchentes e enxurradas. Este é um claro exemplo de quanto ainda precisamos evoluir para uma visão ecocêntrica de mundo, onde a Economia seja inserida, como deve ser, no contexto maior que é o da Ecologia.
Ouvindo muitos de nossos políticos falarem, às vezes me sinto como que vivendo ainda na Idade Média, antes de Copérnico e Galileu, em que todos acreditavam no geocentrismo, ou seja, que a Terra era o centro do sistema solar – e até do Universo! e não na realidade que é o heliocentrismo, com o sol no centro desse sistema.
O antropocentrismo, que considera o ser humano como se tudo só tenha sentido em função dos interesses e necessidades humanas e danem-se os ecossistemas e demais espécies, me soa tão estranho, atualmente, como soaria estranho alguém ainda defendendo o geocentrismo. Acontece que, segundo analistas políticos, é assim que a maioria dos nossos políticos pensam, pior, a maioria dos atuais políticos eleitos! Fora alguns que talvez ainda acreditem em terra plana.
Só que acreditar no geocentrismo ou em terra plana, na prática, não muda nada em nossas vidas. Já o antropocentrismo que ignora que fazemos parte de algo muito maior e funcional, resulta em consequências gravíssimas em nossas vidas. As consequências e os impactos econômicos negativos desse tipo de visão distorcida e alienatória tendem a ser cada vez mais catastróficas.
Está sobejamente comprovado que a falta de respeito para com o meio ambiente já está custando caro e vai custar ainda muito mais caro com as crescentes mudanças climáticas já em curso. Não existe Economia sem Ecologia. Como dizia José Lutzenberger, a Economia é apenas um capítulo da Ecologia.
Agora, preclara leitora e leitor, ainda temos um segundo turno nas eleições para presidente, onde transparece com evidência quem é mais antropocêntrico e desdenha toda e qualquer questão ambiental e quem é mais ecocêntrico e tende a defender o desenvolvimento com respeito ao meio ambiente, como previsto no Art. 225 da Constituição Federal. Temos que optar entre um e outro.
Os que optarem pelo candidato “geocêntrico do século 20” ou nunca se informaram sobre os sólidos conhecimentos da Ciência ou acham que ecologismo é apenas coisa de abraçador de árvore ou sonhador que se embevece com passarinhos, borboletas ou flores. Ou, talvez, nem tenham filhos ou netos para se preocupar com o futuro deles, já que, egoisticamente, não se preocupam com o futuro de todos. Para mim, votar em quem não tenha sólidas propostas de defesa do meio ambiente, equivale a assinar a frase “depois de mim que venha o dilúvio” ou, “f. … -se os que vierem depois de mim”.
Para finalizar, compartilho aqui uma frase recebida há pouco pela internet: “Se você realmente acha que o Meio Ambiente é menos importante que a Economia, tente segurar a respiração enquanto conta seu dinheiro”.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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