Para um número crescente de pessoas, as condições para o futuro da humanidade neste Planeta, não são das mais animadoras. A sensação para muitos é de que as próximas gerações não viverão tão bem quanto nós estamos vivendo hoje, dados os desafios relacionados à poluição, saúde, recursos, alimentação, biodiversidade, desmatamento e outras formas de destruição dos ambientes e dos recursos naturais, superpopulação e por aí vai.
Outro dia caiu-me às mãos o livro “Não é o fim do mundo”, da pesquisadora inglesa Hannah Ritchie, original e tradução, ambos, de 2024, recente, portanto, a ponto de mencionar o que aconteceu com o meio ambiente em geral, e em especial com as florestas do Brasil na comparação do governo Bolsonaro e o atual e anteriores governos de Lula.
Hannah Ritchie é a editora adjunta e pesquisadora principal do Our World in Data, algo como Nosso Mundo em Números Estatísticos. A autora reconhece que os problemas mundiais são bastante sérios, mas têm solução. E surpreende, mostrando em dados e gráficos consistentes que podemos, sim, ter uma visão otimista quanto ao futuro. Ainda não terminei a leitura, mas, para provocar a curiosidade, vão aqui alguns excertos do livro:
– “o mundo produz comida suficiente para alimentar todas as pessoas duas vezes” (…) “é possível alimentar oito, nove ou dez bilhões de pessoas adequadamente, sem arruinar o planeta”;
– “a era dos combustíveis fósseis marcou a exploração das pessoas e do planeta. Vamos assegurar que nada disso ocorra no mundo de baixas emissões de carbono que estamos buscando”;
– “o dilema das décadas de 2000 e 2010 foi escolher entre ter um carro movido a diesel ou um carro movido a gasolina. O grande dilema da década de 2020 em diante será escolher entre ter um carro elétrico ou não ter carro nenhum”;
– “podemos cultivar uma quantidade muito maior de alimentos sem usar mais terra nem derrubar florestas”;
– “evitar o desmatamento de um hectare de floresta tropical é muito melhor do que replantar um hectare de floresta”;
– “os piores alimentos de origem vegetal ainda têm uma pegada de carbono menor que a ‘melhor’ carne bovina e de carneiro” (…) “no que diz respeito à quantidade de terra necessária para produzir um quilo de alimento, a carne bovina e a carne de carneiro perdem feio para qualquer outro alimento”
Ou seja, especificamente nesse último aspecto, se você, cara e preclara leitora e leitor, for grande apreciador de carne de gado ou de carneiro, não tem escapatória, você está contribuindo para grande parte da destruição do planeta;
e tem muito mais:
– “a agricultura foi a força impulsionadora do desmatamento por um longo tempo (últimos milênios) e ainda é. Em nenhum lugar esse padrão é mais evidente que no Brasil”.
Entre muitos dados surpreendentes – e por enquanto apenas reproduzo aqui, sem juízo de valor – está o custo da energia fotovoltaica, que despencou em apenas 10 anos, de 2009 para 2019, embora também tenham impactos ambientais: “O preço da eletricidade gerada por uma usina solar diminuiu 89 % e o preço da eólica caiu 70%. Elas são agora mais baratas que o gás, o carvão, a solar térmica e a nuclear”.
Ainda é cedo para tirar conclusões a respeito deste interessante livro, porém, uma coisa é certa. Como disse certa vez o jornalista Joelmir Betting, todos os dias decolam e pousam em segurança dezenas de milhares de aviões e helicópteros em todo o mundo, mas basta cair um teco-teco e o fato vira notícia. Igualmente, na área ambiental, podemos dizer, milhões de árvores vicejam saudáveis pelas cidades do mundo, mas basta uma delas cair sobre um carro que a manchete está garantida.
A afirmação de Joelmir Betting ajuda a entender como a imprensa costuma escolher as manchetes. Elas até que são verdadeiras, mas podem, muitas vezes, estar longe da normalidade do dia a dia. A normalidade costuma não gerar matéria de divulgação ou informação. Podemos nos surpreender e até discordar de algumas colocações de Hannah Richtie, mas os números e fatos como eles são, independente de vender ou não notícias, é o que a autora procura demonstrar com o seu interessante “Não é o fim do mundo”.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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