O presidente anterior ao atual, no Brasil, passou quatro anos falando de CACs – caçadores, atiradores e colecionadores. Acontece que vivemos num país onde a caça a animais silvestres pertencentes a uma já depauperada fauna nativa está proibida há muitos anos.
Já o presidente atual teve um vídeo viralizado em que sua esposa preparava uma paca na residência oficial, o Palácio da Alvorada, no domingo de Páscoa deste ano. “Duvido que em algum lugar do país alguém já comeu uma paca tão gostosa como essa que eu comi hoje”, disse o presidente.
Dois presidentes e duas preciosas oportunidades perdidas. No primeiro caso, a abominável apologia às armas à parte, a cada menção aos CACs, custava acrescentar uma simples frasezinha de um segundo de tempo, algo como, “caçadores, porém, dentro da lei”?
No segundo caso, custaria o presidente degustador de carne de paca ter acrescentado outra frasezinha em resposta à esposa, algo como, “mas paca criada em cativeiro legalizado, certo, querida?” Ao que a esposa poderia responder “claro, meu amor, nem pensar em ser de outra forma, temos a obrigação de dar o bom exemplo”.
Faz décadas que me recuso a cantar a mentira hínica de que nossos bosques têm mais vida. No caso da Mata Atlântica, como todos sabem, restam cerca de dez por cento da área original em razoável estado de conservação. Dez por cento muito fragmentados e isolados feito ilhas de natureza cercadas de atividades humanas por todos os lados.
São raras as “ilhas” de dimensões grandes o suficiente para garantir a sobrevivência de muitas espécies nativas. E justo nessas “ilhas”, maus e criminosos cidadãos, em não tão pouco número como alguns podem pensar, insistem em adentrar e matar bichos nativos que ali tentam, a duras penas, sobreviver.
Em todos os outros biomas a situação não é tão melhor que na Mata Atlântica, como parece. Mesmo no que resta da Amazonia, já existem grandes áreas apresentando verdadeiros vazios de fauna. Caça-se muito por lá, mesmo em áreas remotas, acessadas rapidamente em velozes lanchas ou barcos tipo voadeiras transportando caçadores ilegais até centenas de quilômetros rios acima e abaixo, em busca de bons sítios de caça.
Nada disso foi lembrado pelos dois presidentes e é possível que milhares de bichos a mais, pacas inclusive, tenham sido mortos por causa disso. Em ambos os casos, a minúscula frase “… porém, dentro da lei”, não acrescentaria mais que um segundo no tempo da fala deles. Um mísero segundo, mas, partindo de uma alta autoridade, de efeito poderoso, equivalente a várias horas de aulas de educação ambiental.
Os dois presidentes perderam a oportunidade de ajudar a conscientizar a população sobre o respeito ao meio ambiente e a importância de se preservar a natureza, ajudando a reverter a atual e triste síndrome das florestas vazias que atinge quase todo o Brasil. Um deles tem agora a chance de não errar mais, quem sabe, fazendo um enorme bem, muitas vezes em não muito mais que um segundo de fala.
As pacas, uma espécie ameaçada ou em situação crítica em nível regional/local devido à predação humana e centenas de outras espécies de nossa fauna e a população em geral agradecem.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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