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Um Baú que pode ser da felicidade 

Por Lauro Bacca*

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Quem não é tão jovem se lembra do Baú da Felicidade, uma das alavancas do apresentador Sílvio Santos, dono do SBT, rumo ao sucesso profissional, empresarial e financeiro. Hoje abordamos outro Baú, que tem tudo para ser da felicidade, mas precisa de um empurrão, de uma iniciativa que melhore sua situação atual. Trata-se do Morro do Baú, ou, como preferia chamar o saudoso e gigante da Botânica, Padre Raulino Reitz, simplesmente, Morro Baú.

Nos mapas oficiais de Santa Catarina consta localizado em Ilhota, o Parque Botânico Morro do Baú, este com 819,47 metros acima do nível do mar. Com esta altitude e a apenas 25 quilômetros em linha reta do litoral ele premia o excursionista que chega ao seu topo com uma das mais deslumbrantes vistas que se pode ter na região e mesmo no Sul do Brasil.

Os antigos navegadores tinham na visão desse morro icônico, com típico formato de um baú inclinado, a certeza da localização, era uma referência, num tempo em que só os astros e os acidentes geográficos costeiros funcionavam no lugar dos atuais moderníssimos aparelhos de navegação e localização.

A proposta de conservação do Parque Botânico do Morro Baú não é de hoje. Consta na publicação “Conservacionismo em Santa Catarina” uma separata da revista científica Sellowia de 1965, do Herbário Barbosa Rodrigues, de Itajaí, Herbário este, outra “cria” admirável do grande botânico Catarinense, de fama internacional.

O Parque Botânico era particular, foi comprado pelo próprio Pe. Raulino da família Buettner, de Brusque e registrado em nome do Herbário Barbosa Rodrigues, “possuindo uma área de 520 hectares (5,2 km²) sendo o morro do Baú o seu principal ponto de atração”. O botânico propunha ainda uma ampliação do Parque Botânico para 2.500 hectares (25 km²), que seria, segundo ele, a área ideal para compreender todo o complexo de montanhas entre os rios Baú e Braço do Baú.  

Informava ainda Reitz, em 1965, que a área funcionava desde 1961 como Estação Biológica do Herbário Barbosa Rodrigues, local, portanto, de coleta e estudos de material botânico. Ele planejava também organizar a área para fins turísticos e informou que “foi creado (sic!) com auxílios do Ministério da Agricultura e da Secretaria de Agricultura do Estado de S. Catarina”. Temos, portanto, dinheiro público também investido ali, há mais de 60 anos.

De 1965 para cá muita água brotou montanhas abaixo entre os rios Baú e Braço do Baú. Na base da subida ao morro Reitz criou também um fantástico bromeliário, com espécies de todo o Estado e mesmo de fora. Abriu uma estrada de acesso até a cota aproximada de 650 metros. Conseguiu construir também um pequeno prédio com garagens e para alojamento de pesquisadores. Tudo ia muito bem até seu falecimento em 19 de novembro de 1990, aos 71 anos de idade.

Foto: Reprodução/Redes sociais

Padre Raulino Reitz não viveu para ver a degradação deste importante “detalhe” de seu gigantesco legado, tampouco para testemunhar a tragédia de novembro de 2008 que causou gigantescos deslizamentos e centenas de mortes tendo como epicentro meteorológico justo a região do Morro Baú.

Discorrer sobre tudo o que tem acontecido entre a morte de Reitz e a atualidade, requereria o espaço de um livro. Pulemos muitas etapas e cheguemos à situação atual, em que a área está oficialmente reconhecida como Parque Natural Municipal do município de Ilhota, desde 5 de janeiro de 2015, depois referendado por projeto de lei na Câmara Municipal do município.

Passados mais de dez anos depois da criação da área como Unidade de Conservação, o que o visitante encontra no lugar é o quase completo abandono. Sobe e desce o morro quem quer e como quer. Motoqueiros inconscientes do respeito ambiental inundam de barulho e fumaça aquele que deveria ser um santuário natural, além de patinar e formar agressivos sulcos de erosão no solo. Ladrões de palmito já levaram tudo o que se poderia levar, devastando não apenas uma espécie icônica da fitofisionomia da Mata Atlântica, mas, também, acabando com uma das principais fontes de alimento da fauna.

Fauna que em grande parte já foi dizimada por caçadores criminosos, (desculpem aqui o pleonasmo). Fora algumas antenas de comunicação que foram implantadas com escavações no cume do morro e uso de baterias elétricas, sem qualquer consideração sobre o fato de ali ser ou não um Parque Botânico ou uma Unidade de Conservação da Natureza do município de Ilhota.

Se o Parque Natural Municipal do Morro do Baú fosse uma estrada, ela estaria totalmente esburacada, enlameada, erodida, absolutamente intransitável. Fosse uma escola ou unidade de saúde, estaria caindo aos pedaços, com telhado cheio de goteiras, vidraças e móveis quebrados e apodrecendo.

Reconhecemos as eventuais dificuldades de ordem legal, orçamentária e outras que podem estar afetando a adequada atuação do órgão ambiental de Ilhota, mas, que está na hora de agilizar a solução dos problemas e implementar de vez por todas aquele magnífico Parque Natural, isso está.

Implementar essa Unidade de Conservação, não deverá ser considerado despesa, mas, sim, investimento, pois, com a quase totalidade da população brasileira vivendo em cidades, cresce dia a dia os que procuram áreas naturais para caminhadas, excursões, banhos de cachoeira e escaladas ou escalaminhadas, caso do magnífico Parque Natural Municipal do Morro do Baú.

A tragédia de novembro de 2008 demonstrou que a vocação de grande parte da região é de preservação e que esta preservação deve ser não apenas implementada como também ampliada, como previu Padre Raulino há mais de 60 anos e que hoje deve estar se revirando desesperadamente no seu túmulo. O que estamos esperando? Vamos agir para que nosso grande botânico possa finalmente descansar em paz e que nossa região se faça digna da alcunha de Vale Europeu? E que o Baú seja de fato, para todos e para sempre, o Baú da felicidade?

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

Leia outros textos do autor aqui.

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Redação
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