Numa entrevista ao podcast Basticast, Zico, o maior camisa 10 do Flamengo, esbravejou contra a tentativa de pôr em segundo plano o título que ele ostenta de maior artilheiro da história do Maracanã. Como seria isto possível? Anulariam os seus gols? Não. Simplesmente passariam uma borracha sobre toda a história vivida dentro do estádio e dariam um título de artilheiro ao jogador que está fazendo mais gols no Maracanã desde que houve a reforma. Se isto fosse levado a sério, atualmente o título caberia ao centroavante Pedro, do Flamengo, que marcou pouco mais de 100 gols até agora, contra 334 de Zico, no “velho Maracanã”. Provavelmente Pedro conseguiria ultrapassar Zico, se jogasse até os 60 anos mais ou menos. Como provavelmente não vai conseguir, inventaram essa baboseira. “Artilheiro do novo Maracanã, o cacete!”, bradou Zico. “Por acaso o Maracanã mudou de lugar?” A indignação do Galinho de Quintino é mais do que justa, uma vez que a mudança da arquibancada e das cadeiras, a pintura e reforma na estrutura jamais vão apagar o que aconteceu naquele gramado. O Maracanã é um só.
Burocratas, cartolas e aspones são ótimos em inventar modas. Mas existe também muitos jornalistas especializados em dizer e inventar bobagens, e que agora convivem com duas novas categorias: os influenciadores e produtores de conteúdo. Com as redes sociais todo mundo ganhou voz, mas haja paciência… Nessa mistura são poucos os que saem ilesos. E isto ficou bem evidente durante a Copa do Mundo de 2026. Muita gente dando bola fora. Num certo canal do YouTube tinha locutor berrando ridiculamente nas participações e nos gols de Messi, Cristiano Ronaldo ou Mbappé, como se aquele gol em particular estivesse assegurando a sobrevivência da espécie humana.
Assim como tentam apagar os feitos de Zico, muitas coisas sem sentido foram ditas nas transmissões dos jogos. A babação, então, dominou. Cristiano Ronaldo e Messi foram elevados aos píncaros da glória pela imprensa, postos ao lado de Zeus, Odin e Rá no panteão dos deuses. Nem Pelé, nem Maradona receberam em vida tal excesso de mesuras como esses dois receberam agora. Até mesmo Ronaldo Fenômeno disse que já era hora de se reconhecer que Messi era o maior jogador de futebol de todos os tempos. Bem, ele deve ter dito isto sensibilizado com a menção ao seu nome pelo jogador argentino, que disse ser uma honra estar ao lado dele na história das copas. Ronaldo, craque excepcional, tem uma coleção de polêmicas que não vem ao caso, mas essa declaração foi uma bajulação colossal.
Faz parte do jornalismo enrolador ou tendencioso destacar um fato e ignorar outros correlatos quando se quer dar ênfase a algum evento ou a alguma pessoa. Isto acontece muito em matérias políticas e de esporte. Foi dessa forma que publicaram uma matéria, replicada por vários portais, destacando que a Argentina dominou as finais de copa do mundo nos últimos 50 anos. O foco dessa matéria é o que aconteceu a partir de 1978, para dizer que desde aquele ano a Argentina já compareceu a seis finais. Mas ignora que o país, depois de participar da final de 1930, e perder para o Uruguai de 4 a 2, passou 48 anos em jejum. Desde que ganhou do modo controverso a Copa de 1978, a Argentina esteve presente em finais com mais frequência, não resta dúvida. Ou seja, em 13 finais, esteve em 6. E que tal o Brasil que, em 4 finais, esteve em 3 e ganhou as 3, entre 1958 e 1970? Mas o que a história das copas registra é que a Alemanha tem o maior número de finais, com 8 participações e 4 títulos. O Brasil participou de 7 e venceu 5. A Argentina também participou de 7 e venceu 3. A Itália tem 6 finais e 4 títulos. Com tudo isso, na matéria o Brasil aparece como um mero coadjuvante.
Voltando à Copa de 2026 e a babação, não tem aqui qualquer avaliação ou questionamento do desempenho dos jogadores na copa, mas para quem, encantado com o espetáculo das transmissões, e acha que viu em 2026 o suprassumo do futebol e os gênios em ação, é bom apresentar alguns dados. Os números não traduzem o que ocorreu em campo e a importância de cada jogador numa partida, mas precisamos nos apoiar em alguns parâmetros. Na radiografia de uma partida, a FIFA leva em consideração o domínio de bola, acertos e erros de passes, finalizações, faltas e outras coisas mais. Falta pouco para considerarem também os quesitos nojentos, como cusparadas, dedos no nariz e coçação de saco dos jogadores. Mas o que dizem os números oficiais dos critérios que interessam para avaliar os jogadores?
Lionel Messi e Cristiano Ronaldo participaram de seis copas do mundo, um número recorde em toda a história do Mundial. Perto deles só chegou o alemão Lothar Matthäus, com cinco participações. Entretanto esses números não lhes deram vantagens em títulos ou em gols. Em seis participações, Messi e Lothar Matthäus foram campeões apenas uma vez (2022 e 1990, respectivamente), e Cristiano Ronaldo nunca. Enquanto Pelé, em quatro participações (1958,1962, 1966 e 1970), foi campeão três vezes. Messi também tem outro dado interessante. É dele a maior participação em partidas das copas, com 34 no total. No entanto sua média de gols é baixa. Considerando que ele marcou 21 vezes, sua média de gols por partida é 0,61. O motivo é que Messi em 8 jogos nas copas de 2006 e 2010 fez apenas 1 gol.
Na contramão de Messi, tem o esquecido polonês Ernest Wilimowski. Numa só partida que jogou na copa de 1938 contra o Brasil, ele fez 4 gols, o que o leva a ter a maior média de gols da história, com 4,0. É bom ressaltar que ele fez 4 gols no Brasil, mas a Polônia acabou levando de 6×4. Outros dois fenômenos são o húngaro Sándor Kocsis, que marcou 11 gols em 5 partidas (média de 2,2) e o francês Just Fontaine (foto da Copa de 1958), que marcou 13 gols em 6 partidas, tendo a média 2,16. Até hoje ninguém superou Fontaine, com 13 gols numa só copa, embora sua média não seja a maior. As estatísticas são cruéis, não refletem a grandeza de um jogador ou a sua importância para uma seleção. Maradona, por exemplo, fez poucos gols nas 4 copas que participou, embora um deles seja considerado pela Fifa o mais bonito de toda a história do Mundial e ele tenha sido campeão. Assim como Maradona, Pelé nunca foi o artilheiro, mas ajudou a trazer 3 títulos para o Brasil.
Abaixo segue uma tabela com os jogadores que fizeram de 7 a 13 gols numa só copa. Por questão de espaço só estão relacionados os artilheiros com mais de 6 gols. Dá para ver que a artilharia não tem relação com o título de campeão. Nesta tabela, apenas Ronaldo Fenômeno alcançou a artilharia e o título, em 2002. Antes, só o argentino Mario Kempes, com 6 gols, foi campeão em 1978, e o italiano Paolo Rossi, também com 6 gols, ganhou a copa em 1982.
Maiores artilheiros das copas
| JOGADOR | PAÍS | ANO | GOLS | PAÍS CAMPEÃO |
| Just Fontaine | França | 1958 | 13 | Brasil |
| Sándor Kocsis | Hungria | 1954 | 11 | Alemanha |
| Gerd Müller | Alemanha | 1970 | 10 | Brasil |
| Kylian Mbappé | França | 2026 | 10 | Espanha |
| Ademir Menezes | Brasil | 1950 | 9 | Uruguai |
| Eusébio | Portugal | 1966 | 9 | Inglaterra |
| Guillermo Stábile | Argentina | 1930 | 8 | Uruguai |
| Ronaldo Fenômeno | Brasil | 2002 | 8 | Brasil |
| Kylian Mbappé | França | 2022 | 8 | Argentina |
| Leonel Messi | Argentina | 2026 | 8 | Espanha |
| Leônidas da Silva | Brasil | 1938 | 7 | Itália |
| Jairzinho | Brasil | 1970 | 7 | Brasil |
| Grzegorz Lato | Polônia | 1974 | 7 | Alemanha |
| Leonel Messi | Argentina | 2022 | 7 | Argentina |
| Erling Haaland | Noruega | 2026 | 7 | Espanha |
| Jude Bellingham | Inglaterra | 2026 | 7 | Espanha |
A artilharia também não significa melhor aproveitamento numa copa, pois a média depende do número de gols e o número de partidas jogadas. Quanto mais partidas disputadas, mais o jogador fica sujeito ao seu desempenho como goleador para manter um bom aproveitamento. São os casos de Mbappé (média de 1 gol por partida), Messi (0,61) e Cristiano Ronaldo (0,4) que mantiveram média baixa. Segue a relação com os melhores aproveitamentos.
Goleadores com as melhores médias das copas
| JOGADOR | PAÍS | COPAS | PARTIDAS | GOLS | MÉDIA |
| Ernest Wilimowski | Polônia | 1938 | 1 | 4 | 4,00 |
| Sándor Kocsis | Hungria | 1954 | 5 | 11 | 2,20 |
| Just Fontaine | França | 1958 | 6 | 13 | 2,16 |
| Guillermo Stábile | Argentina | 1930 | 4 | 8 | 2,00 |
| Josef Hügi | Suíça | 1954 | 3 | 6 | 2,00 |
| Oleg Salenko | Rússia | 1994 | 3 | 6 | 2,00 |
| Leônidas da Silva | Brasil | 1934 – 1938 | 5 | 8 | 1,75 |
| Leopold Kielholz | Suíça | 1934 – 1938 | 2 | 3 | 1,50 |
| Ademir de Menezes | Brasil | 1950 | 6 | 9 | 1,50 |
| Burhan Sargun | Turquia | 1954 | 2 | 3 | 1,50 |
| Eusébio | Portugal | 1966 | 6 | 9 | 1,50 |
| Erling Haaland | Noruega | 2026 | 5 | 7 | 1,40 |
Muitos jogadores, gênios da bola, não alcançam a artilharia e outros marcaram poucos gols em relação aos artilheiros. Mesmo assim a sua participação foi decisiva nas vitórias. Neste grupo estão jogadores do quilate de Pelé, Maradona, Garrinha e Cristiano Ronaldo. Estão entre os maiores, mas a matemática não os favoreceu para figurarem no topo das estatísticas. Segue a relação com os principais nomes.
Craques que brilharam, mas não chegaram a ter uma alta média de gols
| JOGADOR | PAÍS | COPAS | PARTIDAS | GOLS | MÉDIA |
| Gerd Müller | Alemanha | 1970 – 1974 | 13 | 14 | 1,07 |
| Kylian Mbappé | França | 2018 – 2022 – 2026 | 22 | 22 | 1,00 |
| Vavá | Brasil | 1958 – 1962 | 10 | 9 | 0,90 |
| Pelé | Brasil | 1958 – 1962 1966 – 1970 | 14 | 12 | 0,85 |
| Gary Lineker | Inglaterra | 1986 – 1990 | 12 | 10 | 0,83 |
| Ronaldo Fenômeno | Brasil | 1994 – 1998 2002 – 2006 | 19 | 15 | 0,78 |
| Harry Kane | Inglaterra | 2018 – 2022 – 2026 | 18 | 14 | 0,77 |
| Romário | Brasil | 1990 – 1994 | 8 | 5 | 0,62 |
| Lionel Messi | Argentina | 2006–2010–2014 2018 – 2022-2026 | 34 | 21 | 0,61 |
| Jairzinho | Brasil | 1966 – 1970 – 1974 | 15 | 9 | 0,60 |
| Neymar | Brasil | 2014 – 2018 2022 – 2026 | 15 | 9 | 0,60 |
| Diego Maradona | Argentina | 1982 – 1986 1990 – 1994 | 21 | 8 | 0,53 |
| Rivelino | Brasil | 1970 – 1974 – 1978 | 15 | 6 | 0,40 |
| Cristiano Ronaldo | Portugal | 2006–2010–2014 2018 – 2022-2026 | 27 | 11 | 0,40 |
| Garrincha | Brasil | 1958 – 1962 – 1966 | 13 | 5 | 0,38 |
| Zico | Brasil | 1978 – 1982 – 1986 | 14 | 5 | 0,35 |
*o autor é jornalista
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