As datas do início e fim das estações do ano são tão exatas quanto antinaturais. Elas são determinadas por momentos precisos do ponto de vista astronômico, o que não bate com o que sentem todos os seres vivos do planeta. Qual é o bicho, planta, fungo ou microrganismo que vai perceber que a próxima primavera do hemisfério Sul começará exatamente às 21 horas, 05 minutos e 57 segundos do dia 22 vindouro? E que vai terminar às 18 horas, 50 minutos e zero segundos do próximo dia 21 de dezembro? Que ecossistema terrestre, em qualquer parte do mundo, vai perceber e reagir a momentos tão precisos quanto esses?
A observação astronômica feita principalmente por babilônios, egípcios, maias, chineses e gregos já determinou, há milênios, os dias em que acontecem os solstícios de inverno e de verão. Os sofisticados aparelhos atuais determinam isso com precisão de segundos, se duvidar, até centésimos de segundos! Precisões à parte, o fato é que se convencionou que o inverno e o verão iniciam, respectivamente, nos solstícios de inverno e de verão, quando o sol mais se “afasta” ou se “aproxima” dos respectivos hemisférios e que as primaveras e outonos começam nos equinócios, ou seja, no dia e hora exata que o sol incide sobre a linha do equador.
Os gráficos que representam os aumentos ou diminuições de temperatura (média de dezenas de anos), pelo menos para o caso de Santa Catarina, apontam a maior temperatura e a menor temperatura média, para cerca de um mês depois dos solstícios, tanto de verão quanto de inverno. Assim, aproximadamente, podemos dizer que a média das maiores temperaturas acontecem aqui por volta de 21 de janeiro e as menores, por volta de 21 de julho.
É por volta dessas datas que os dias começam a ficar mais longos ou mais curtos, respectivamente, com maior rapidez, ou seja, no mínimo um minuto a mais de sol por dia, portanto, em condições de serem perceptíveis aos seres vivos. Ao contrário, a partir de 21 de junho, data astronômica para o início do inverno, demora mais de uma semana para a duração do dia aumentar apenas 1 minuto. O mesmo acontece antes e depois de 21 de dezembro, quando um minuto a mais ou a menos demora outros sete ou oito dias para acontecer.
Quanto mais próximo do Equador menos perceptível é essa diferença e quanto mais próximo dos polos, mais perceptível e rápida é essa diferença e isso ajuda a entender os mecanismos de adaptação dos seres vivos aos ritmos circadianos, algumas espetaculares, como no caso das grandes migrações de aves.
Então temos, por um lado, com total precisão, o início das estações meteorológicas do ano e, por outro lado, sem maior precisão, pois, trata-se de uma média que pode variar de um ano para outro, as estações “ecológicas” do ano, aquela que as espécies percebem e à qual já estão adaptadas há milhares e milhões de anos!
A estação pouco precisa é, pela lógica, a estação verdadeira, aquela à qual os ecossistemas respondem por adaptação milenar. Mas, como determinar quando ela, de fato, começa? Seria 21 de janeiro o início do verão e 21 de julho o início do inverno? Por consequência, duraria o outono real de 21 de abril a 21 de julho e a primavera real de 21 de outubro a 21 de janeiro? Algo me diz que isso não bate bem, portanto, nem 21 de julho para o início dos invernos, nem 21 de janeiro para o início dos verões.
Se por volta de 21 de julho temos aproximadamente o auge do frio, conclui-se, cabalisticamente, ser nesta data o meio do inverno térmico, que, portanto, iria de 06 de junho até cerca de 06 de setembro. Uma espécie de situação intermediária entre o inverno fótico astronômico, baseado na incidência da luz solar e o inverno térmico, mais ecológico.
Igualmente, se o auge do calor que os seres vivos sentem acontece aproximadamente em 21 de janeiro, o verão poderia ser determinado entre 06 de dezembro e 06 de março, também aproximadamente. No frigir dos ovos, um meio termo entre as datas astronômicas precisas, porém não “ecológicas” e as datas não precisas, porém, definitivamente, mais “ecológicas”: primavera de 06 de setembro a 06 de dezembro, verão de 06 de dezembro até 06 de março, outono de 06 de março a 06 de junho e inverno desta data até 06 de setembro.
A gente percebe que as reações da natureza à nova estação real já começam nessa época em que escrevo essas linhas, 04 de setembro deste 2026, chegando ao auge no final do mês e início de outubro e se prolongando festivamente até dezembro: dias cada vez mais longos, com brotamento de novas folhas, florações, cantoria de aves, lagartos e cobras saindo das tocas, cantoria de anfíbios, dentre muitos outros sinais da primavera real. Viva, portanto, o início da primavera verdadeira neste próximo dia 06 de setembro … aproximadamente!
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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