Recebi do amigo paulistano Antônio Padilha sua contribuição sobre o tema sacolas plásticas, escrito em 2017, que achei muito bom. Como não saberia fazê-lo melhor e, dada nossa identidade de pensamento, assino embaixo e compartilho aqui com os amigos o texto do Padilha com um mínimo de adaptações minhas para esta coluna.
As poderosas
Antônio Padilha, engenheiro mecânico e ambientalista
Naquele dia, a Dona Maria foi ao banco pagar uma conta e, ao voltar, passando em frente ao mercado, lembrou-se de que precisava comprar algo para o jantar daquele dia. Mas esqueceu-se de pegar a sacola quando saiu de casa. E agora? Ter que ir até sua casa de novo para trazer a sacola, quando está nesse momento passando em frente à porta do mercado, mas, não tem como levar as coisas … e é longe e está cansada. O Sr. Manoel, dono do mercadinho, estava na porta e, vendo-a passar, perguntou: – Dona Maria, não vai levar nada hoje? Aproveite que estou fazendo promoção de frutas e verduras! – Não posso, Seu Manoel, estou precisando comprar, mas, esqueci a sacola em casa … – Bem, não seja por isso, eu posso ajudá-la, tenho aqui alguns sacos plásticos sobrando, pode pegar um para levar suas compras. – Obrigado, Seu Manoel, vou querer, sim. E assim o Seu Manoel ajudou a Dona Maria a resolver seu problema daquele momento.
No dia seguinte, a Dona Maria estava de volta ao mercadinho para novas compras, com sua sacola de pano. Ao sair, viu sua amiga dona Ana que ia passando. – Como vai, Ana, não vai comprar nada hoje aqui? – Não posso, Maria, esqueci minha sacola, tenho que deixar as compras para amanhã. – Pode comprar hoje sim, o Seu Manoel pode arrumar uma sacolinha para você, como arrumou para mim ontem e você não perde a viagem.
De fato, seu Manoel arrumou um saco plástico para dona Ana também, como fez ontem para Dona Maria. E as outras pessoas que estavam no mercado viram isso e viram como era prático e fácil pedir ao seu Manoel um saco plástico, que não custava nada, era melhor que trazer de casa uma velha sacola já amarelada pelo tempo de uso e não muito higiênica, pois, naturalmente, nela devia haver uma população de micróbios talvez perigosos para a saúde etc.
E o dono do mercadinho vizinho, assim como o gerente do supermercado próximo também viram isso, pois, as pessoas conversam e trocam ideias entre si e todos ficam sabendo das coisas que estão acontecendo. E como os donos e gerentes de mercado não querem perder clientes para o seu Manoel, que de repente está dando sacos plásticos gratuitamente aos seus clientes, todos imediatamente trataram de oferecer sacos plásticos gratuitamente aos seus clientes a partir de agora. Como o custo daquelas sacolinhas é baixo, fica fácil ratear esse custo no preço de todos os produtos e ninguém vai perceber, diante dos eventuais ajustes de preços por conta da inflação. E as pessoas viram que não precisavam mais levar suas velhas sacolas quando fossem fazer compras, porque usar sacos plásticos é melhor e nós devemos sempre procurar o que é melhor para as nossas vidas.
E a disponibilidade de sacos plásticos grátis nos mercados se espalhou por todo o bairro e pela cidade e pelo país e por todos os cantos do mundo. E agora, aquele saco plástico que Dona Maria ganhou do Seu Manoel por ter esquecido da sacola naquele dia multiplicou-se de tal forma que hoje, em 2017, no mundo todo, os sacos plásticos estão sendo produzidos e usados com a velocidade de cinco trilhões de sacos por ano(¹), isto é, 160.000 sacos por segundo! Desse total, só 1 por cento está sendo reciclado. Dos 99% restantes 10% chega ao mar e são levados pelas correntes marinhas aos grandes “giros”, que são cinco imensas ilhas de lixo flutuante de milhares de quilômetros quadrados que existem no centro de todos os oceanos(²).
Milhares de aves e seres marinhos morrem por ano porque engolem este lixo pensando que é alimento ou se enroscam nas suas alças. Essa é uma boa medida para avaliar o tamanho da burrice humana. O que fazer? Parar com isso, é claro! Mas essa é uma tarefa quase impossível. Quando prefeito de São Paulo, Fernando Haddad tentou parar com as sacolinhas nos supermercados e sofreu uma derrota retumbante… Os sacos plásticos venceram igual placar alemão de sete a um e, para reforçar a vitória e humilhar a prefeitura ainda mais, em seguida invadiram a entrada dos Shopping Centers nos dias de chuva, na forma de “sacos de guarda-chuva”, fora inúmeros outros exemplos! Isso é vencer e tripudiar em cima do vencido! A mesma coisa aconteceu na Califórnia, onde a tentativa de proibir por lei os sacos plásticos foi um grande fracasso. Daí se pode concluir que estas sacolinhas, apesar do seu aspecto frágil, são imensamente poderosas, são mais fortes que a lei.
1 www.theworldcounts.com/counters/waste_pollution_facts/plastic_bags_used_per_year
Adendos (Lauro Bacca):
- Na realidade, a Lei 15.374 do município de São Paulo proíbe a distribuição de sacolas plásticas aos clientes, mas estas continuam a ser distribuídas normalmente, basta o cliente pedir ou responder “sim” à pergunta: “– Quer uma sacolinha?”. A essa pergunta automática, numa padaria, meu amigo Padilha, autor do texto acima, respondeu que não, que o uso de sacolas plásticas é proibido por lei. Lei exposta num bonito quadro, com vidro e moldura, pendurado na parede da padaria praticamente na frente do nariz da bela moça que o atendeu no caixa e que lhe fez, assim como faz a todos os clientes, essa mesma pergunta.
- Padilha, eu e minha esposa nos sentimos sozinhos, “perdidos no mar de sacolas e embalagens plásticas descartáveis”, mas, graças a nós três, a cada ano, serão 5 trilhões de sacolinhas, menos as que recusamos todos os dias, no mercado, na padaria, nas farmácias, enfim, em todo lugar onde elas são oferecidas. E você, cara e preclara leitora e leitor, também está nessa?
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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