Quem acessar a imagem de Manaus no Google Earth, vai observar um quadrado de floresta amazônica quase perfeito ao Norte da cidade, com 10 quilômetros de lado, totalizando uma área de 100 quilômetros quadrados, ou dez mil hectares. É a Reserva Florestal Ducke, concebida em 1940 pelo botânico Adolfo Ducke e oficialmente criada e batizada em homenagem ao seu idealizador em 1963, após doação do governo do Amazonas ao governo federal e, desde então, sob administração do INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
Quadrado quase perfeito, pois, o vertiginoso, estonteante e muitas vezes descontrolado (ou eleitoralmente estimulado?) crescimento da cidade abocanhou uns pequenos nacos dessa reserva. Falo de uma Manaus que tinha 100 mil habitantes em 1940, 450 mil habitantes quando a conheci em 1976 e 2.330.000 habitantes atualmente.
A cidade, de expansão muito mais horizontal que vertical, literalmente, começa a cercar essa que outrora foi uma distante área a 26 quilômetros do Centro, no seu ponto mais próximo à cidade. Apesar da invasão urbana parecer pequena, são centenas de casas que se erguem em espaços onde deveria haver apenas floresta. Em outros lugares onde não houve invasão, avenidas asfaltadas retilíneas marcam o limite da Reserva Ducke por vários quilômetros.
De limites originais imperceptíveis nas imagens de satélite, escondidos pela enorme e então contínua selva até a época em que a conhecemos, hoje, o quadrado aparece quase completo, cercado pela urbanização de Manaus nas faces Sul e Oeste e parte da face Leste e por fazendas que estão deixando esse quadrado florestal cada vez mais visível nas imagens dos últimos 20 anos e cada vez mais isolado do restante da floresta.
Uma das formas de estancar a invasão urbana foi a criação do Jardim Botânico de Manaus, no limite sul da Reserva Ducke e parece que deu certo. No local o visitante pode percorrer uma aprazível trilha, acessar uma torre de 42 metros de altura, do alto da qual ainda se sente o gigantismo da floresta, conhecer serpentário, aracnidário, borboletário, pequeno lago com as enormes folhas flutuantes das vitórias amazônicas, gigantescas árvores da mata de terra firme, entre outras atrações que fazem parte do MUSA– Museu da Amazônia.
Se o observador do alto da torre da Reserva Ducke, impressionado com o que que ele vê lá de cima, lembrar que aquilo tudo representa 15 décimos milésimos de toda a floresta, vai ficar ainda mais pasmo com o gigantismo da Hiléia Amazônica. Uma ínfima área diante de toda a (ainda) maior floresta tropical do mundo, mas, importantíssima, pois, tem servido de base de pesquisa mais antiga e produtiva em floresta tropical conduzida pelo INPA.
Não foi sem emoção que revimos a Reserva Ducke em junho último, 50 anos depois que a conhecemos pela primeira vez quando cursávamos o mestrado em Ecologia no INPA, em 1976. No nosso tempo não havia o MUSA, nem o Jardim Botânico nem a torre de observação, do alto da qual não dava vontade de sair.
Em 1976 o acesso à base de pesquisas da Reserva se dava apenas pelo canto noroeste do quadrado. A sensação era de uma reserva relativamente distante, alcançável depois de muitos quilômetros, algo como ir de Blumenau a Itajaí em poeirentas estradas de terra. Jamais imaginaríamos, naquela época, que a cidade, qual colossal ameba telúrica, envolveria boa parte daquela floresta.
Hoje em dia, a gigantesca urbanização horizontal de Manaus ocupa uma área três vezes maior que a Reserva Ducke. Três vezes mais área para abrigar basicamente uma única espécie, que prefiro nomear como sendo Homo pseudosapiens, contra uma área três vezes menor, que, por enquanto – e tomara que seja para sempre – abriga milhares de espécies da flora, fauna e funga amazônicas.
Mas o que observamos, também, foram sinais da invasão insidiosa, quase invisível, dos efeitos colaterais da cidade floresta adentro, problema que assola inúmeras outras áreas naturais protegidas no Brasil e no mundo, assunto que pretendo abordar numa próxima oportunidade aqui, em O Auditório.

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Agradeço aos amigos Dr. Herbert Schubart e Dra. Muriel Saragoussi pela dirimência de dúvidas relativas a acessos à Reserva Ducke.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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