Em almoços corriqueiros, daqueles que a gente faz quando está fora de casa no dia a dia, gosto de me sentar junto a janelas, apreciando o que acontece lá fora. Duas cenas chamaram a atenção recentemente, ambas no Reino do Garcia, segundo a jocosa brincadeira local do nosso querido “Primeiro Ministro” Sargento Junkes.
Cena 1, observada do Pub Brasil da Rua Amazonas. Terminada a última tragada cancerígena, o fumante pretensamente consciente do seu nobre gesto de não poluir a sarjeta com mais uma bituca, mira a boca de lobo e pimba! Ela some da sua vista, some da vista de todos e se soma às bilhões de bitucas que tem como destino os cursos d’água e, claro, lá adiante, o mar.
Cena 2, observada desta vez pela esposa, a partir da vidraça do Beringela, na Cooper, também da Rua Amazonas. A fumante afasta-se uns 12 metros da porta do estabelecimento, chega na calçada e pimba! Poupou o gramado e os acessos para garantir a presença de sua xepa junto ao meio fio. A água da chuva que chegava naquele momento se encarregou do trabalho extra de levar a guimba até a boca de lobo e dali aos rios e ao mar, onde vai se juntar a bilhões de outras pontas de cigarro que ali afluem todos os dias mundo afora.
Uma cena três, em meio a tantas outras é facilmente observada por qualquer um que trafegue em nossas ruas. O braço do infeliz candidato a infarto do miocárdio fica apoiado para fora do carro enquanto ele assim dirige, em desacordo com o código nacional de trânsito, segurando seu restinho de cigarro. Última tragada e pimba! Mais uma bagana no planeta, com o trabalho extra dos ventos ou da água das chuvas arrastarem-na até a sarjeta, desta para o bueiro e dali paro rio e então para o mar.
Naturalmente que muitas bitucas não seguem esse roteiro e ficam por ali mesmo, no chão de um terreno, de uma praça, de um gramado ou junto à vegetação seca de uma beira de estrada onde podem provocar colossais incêndios, só para citar uns poucos destinos entre tantos, mas, todos, tendo em comum, a poluição do planeta.
O Brasil produz 7,7 bilhões de cigarros por mês que, somados aos 2,7 bilhões que entram clandestinamente, totalizam quase 10 bilhões de cigarros mensais. No mundo, são 5 trilhões de cigarros por ano. Se enfileirados um atrás do outro, formariam um trenzinho diário de cigarros de mais de um milhão de quilômetros, equivalente a 29 voltas ao redor do planeta. No dia seguinte, outro “trenzinho” de outras 29 voltas planetárias e assim, todo santo dia, sem parar.
As sacolas plásticas descartáveis, como vimos no artigo do Antônio Padilha na semana passada, somam números parecidos. Elas são um subproduto do petróleo que arrancamos das entranhas da Terra. O fumo é produto de lavoura que ocupa espaço agrícola que poderia estar coberto por florestas e outros ecossistemas naturais ou poderia estar contribuindo para a produção de alimentos.
Seja como for, tanto as sacolas plásticas que você usa, cara e preclara leitora e leitor e os cigarros “hipertensogênicos” que você fuma, desafortunado leitor, são apenas duas minúsculas pontas do gigantesco iceberg de impacto planetário que todos nós causamos, diariamente, ao planeta Terra. Ôps! Todos nós, não: menos eu que nem fumo nem uso sacolas descartáveis e menos todos os que fazem o mesmo.
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Pergunta que não quer calar, nesses tempos de ameaças de consequências de um El Niño muito forte neste segundo semestre: onde estava a cabeça de governantes, engenheiros e planejadores que construíram um conjunto da Cohab justo num dos primeiros lugares atingidos por enchentes na cidade de Rio do Sul – SC?
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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