Qualquer um que se postar à saída dos caixas de supermercados, mas também de farmácias, padarias e muitas lojas, perceberá facilmente que o que menos se vê saindo dali são pessoas portando suas compras dentro de sacolas retornáveis. Não se trata de um “menos” qualquer. Trata-se, seguramente, na melhor das hipóteses, de menos de míseros um por cento dos clientes. Pelo menos é o que se pode observar nos estabelecimentos que frequento na minha cidade de Blumenau, que ainda não tem lei para exigir pagamento para cada sacola plástica que se usa.
O ser humano é muito acomodado. Para que se preocupar em levar sacolas retornáveis de casa, se o sujeito pode sair com as compras dentro das práticas, porém, diabólicas sacolas descartáveis, ou seja, do tipo usa-se-uma-vez-e-joga-se-fora? Acomodação potencializada pela gentileza do caixa a quem o cliente pagou a compra, que embala tudo ali dentro, como uma espécie de cortesia oferecida pelo reino do lixo planetário. Sem contar aqueles que pedem duas ou três sacolas para acomodar o(s) mesmo(s) produtos. Ou a pouca preocupação em otimizar o número de sacolas, muitas delas contendo menos de 20 por cento dos produtos que poderiam conter como qualquer observador pode constatar.
Se logo ali adiante, na rua ou no estacionamento, um repórter apontar o microfone para o cidadão que acabou de encher o bagageiro do seu carro com compras dentro de sacolas plásticas e perguntar: “o Sr. acha importante cuidar do meio ambiente?” Ele vai responder que “claro, sim … sim, todos nós temos que cuidar” – e alguns até emendam – “e cobrar de nossas autoridades”.
Se o repórter perguntar por que o sujeito (ou sujeita) não usou sacolas retornáveis, ele ou ela logo responderão, exibindo ares de ilusória consciência ambiental: “mas eu reutilizo essas sacolas para acomodar o lixinho doméstico”.
Já ouvi esse tipo fajuto de resposta compradora de consciência ambiental muitas vezes, cara e preclara leitora e leitor e cabe aqui pensar: primeiro, haja lixinho doméstico para encher tantas sacolas plásticas; segundo, o freguês leva tantos produtos que já saem das prateleiras embalados dentro de sacos plásticos que, se ele quiser aproveitá-los para o lixinho doméstico vai ter embalagens suficientes para dar e vender, de tantas que chegam em nossas casas, embalando nossas compras.
Vale aqui abrir um parêntese para dizer que a situação é a mesma para quem vai fazer compras de carro ou quem utiliza ônibus. Afinal, qual a diferença entre entrar no ônibus com sacolas descartáveis ou retornáveis? Qual o problema de o usuário de ônibus já sair de casa com umas sacolas reutilizáveis bem dobradas e ocupando pouco espaço, no bolso, na bolsa ou na mochila?
Nossa sociedade já deu provas de que, quando bem orientada, mas, também, cobrada, os costumes mudam para melhor, quase que da noite para o dia. Veja-se o caso do respeito à lei que proíbe fumar em recintos não abertos, ou semi-abertos e públicos. Ou, o costume de botar fogo em tudo quanto é resíduo vegetal, que diminuiu espetacularmente nas últimas décadas.
Esses exemplos nos dão esperança de que ainda poderemos evoluir também em muitas outras importantíssimas questões ambientais. Comparando com alguns dos grandes problemas ambientais do mundo, como as mudanças climáticas, a questão das sacolas descartáveis não passa de um problema de menor magnitude, mas, jamais, desprezível.
De um modo geral, os impactos ambientais causados pelo ser humano à sua casa, o planeta Terra, têm na sua origem nossa visão terrivelmente antropocêntrica de mundo, achando que nós somos tudo o que importa e a natureza não passa do resto que se dane. Seja uma sacola plástica descartável, sejam as inacreditáveis bilhões de toneladas de carbono que a humanidade joga na atmosfera todo santo dia, a base filosófica dessas atitudes tão gigantescamente díspares é uma só.
Cabe à Educação Ambiental ser mais dinâmica, onipresente e persistente, de formas a mudar nossa visão antropocêntrica de mundo, origem de quase todos os nossos problemas. Problemas que devem ser enfrentados com coragem, determinação e urgência, se quisermos, de fato, deixar um planeta melhor para nossos filhos, netos e demais pósteros.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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