Sábado, Agosto 29, 2026
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Três por cento que incomodam 

Por Lauro Bacca*

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Santa Catarina possui pouco mais de um por cento de seu território urbanizado. Ampliando a qualificação do uso da terra para toda a área construída, portanto, indo além das cidades, passando por rodovias, asfaltadas ou não, portos, aeroportos, silos, pátios, áreas de estacionamento, indústrias, casas e igrejas mais isolados e todos os seus acessos, enfim, toda a área construída, a porcentagem desse tipo de uso de solo chega a 2,58 por cento do Estado, como informa o relatório do Inventário Florestal Nacional/Santa Catarina.

Menos de três por cento do território coberto por área construída dá a impressão, numa primeira vista, de ser uma área diminuta, portanto, de desprezível impacto ambiental. Ledo engano, cara e preclara leitora e leitor, pois, esses tais menos de três por cento impactam bastante, e como impactam!

A começar pela malha viária que conecta as cidades, vilas, lugarejos e destinos. Essa malha viária, vista num mapa rodoviário parece uma telúrica teia de aranha que se espalha qual tentáculos por toda a paisagem. Teia que isola os poucos ambientes naturais onde a fauna nativa ainda consegue viver.  Isola, mas, não aprisiona. Por isso, mata milhões de indivíduos da fauna nativa que, em busca de alimento, hábitat ou parceiro para acasalamento, se atrevem a cruzar as rodovias, todo santo ano.

Quanto mais povoado um estado, como São Paulo, por exemplo, mais densa é essa malha viária assassina de uma fauna composta por mamíferos, aves, répteis e anfíbios, para não falar dos invertebrados, que não tem mais para onde ir, confinada que está nos últimos e diminutos fragmentos de florestas e demais ecossistemas naturais.

Além disso, qualquer via pública, seja do tamanho que for, costuma passar sobre inúmeros cursos d’água. Isso implica aterros, pontes e tubulações que alteram (as pontes nem tanto) as condições hidrológicas locais. Pequenos rios, quando não córregos inteiros, no caso das cidades, são retificados e tubulados, o que significa alterações do regime hídrico e sentença de morte para toda uma cadeia de vida que depende direta ou indiretamente desse tipo de ambiente aquático, acabando por afetar, também, por tabela, o ambiente terrestre.

As tubulações de cursos d’água não precisam necessariamente ser extensas. Poucos metros de tubulação instalados sob uma via pública já são suficientes para formar uma barreira, impedindo ou dificultando a livre migração de peixes e demais seres potâmicos, ou seja, seres associadas a rios e demais cursos d’água.

Na minha cidade de Blumenau, que cresceu ao longo dos fundos de vales, praticamente todos os córregos e cursos d’água menores estão, no mínimo, parcialmente tubulados. Isso significa que, mesmo na hipótese de ausência de qualquer poluição, como no caso de inúmeros córregos que descem puros e cristalinos das encostas cobertas de florestas nativas, perde-se a aludida vida aquática direta ou indiretamente, com consequências que se prolongam por toda a bacia hidrográfica.

Os aterros de margens e baixadas alagáveis como brejos e pântanos, na maioria das vezes contíguas às áreas ocupadas e construídas, além de prejudicar o berçário de inúmeras formas de vida aquática continental, destroem esse sistema amortecedor de enchentes e enxurradas, contribuindo para o agravamento de enchentes e enxurradas.

O regime hídrico é afetado pela impermeabilização dos solos urbanos.  No entanto, apenas os cursos menores, predominantemente urbanizados, onde as enchentes e enxurradas ficam mais fortes e violentas. Já em grandes bacias hidrográficas, como o Vale do Itajaí, por exemplo, em que que a superfície construída pode chegar a cinco por cento da área total, isso não seria suficiente, por si só, para afetar significativamente as enchentes do vale como um todo.

As cidades formam ainda uma anormal concentração de humanos e “pets” consumidores da cadeia alimentar, ao contrário dos ecossistemas naturais, onde os produtores (vegetais que fazem a fotossíntese, principalmente), herbívoros, carnívoros e decompositores como os fungos convivem e trocam matéria e energia, reciclando tudo no mesmo lugar. A produção fotossintética de alimentos fica fora e muitas vezes longe das cidades, ocupando enormes espaços da natureza e gerando necessidade de transporte, logo, enorme consumo de energia e aumento do movimento das rodovias que podem matar mais bichos selvagens por atropelamento.

Milhares ou milhões de consumidores, por outro lado, concentram dejetos no pequeno espaço urbano, gerando poluição aérea e hídrica se não devidamente tratados e, se tratados, necessitam de energia extra de bombeamento, tratamento e encaminhamento dos dejetos ao destino correto antes do retorno aos cursos d’água.

Tudo isso e muito mais, gera impacto ambiental que se estende muitíssimo além dos meros três por cento de área construída, uma pequena porcentagem diante da totalidade de formas de uso do solo, mas que incomoda de forma acachapante, o equilíbrio ecológico de praticamente cem por cento dos espaços.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

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Redação
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