Ao contrário de mais de 90 por cento dos passageiros aéreos que ignoram ou pouco olham a paisagem, procuro sentar sempre junto às janelas, que deixo abertas, mesmo à noite. É que sou um leitor voraz de paisagens, apesar dos parcos conhecimentos de geologia, geomorfologia e meteorologia, mas, com algum conhecimento de vegetação, Ecologia e Geografia Física prática.
Discordo dos que dizem que lá de cima não dá para ver nada. Dá para ver muita coisa, sim, senhor! Mesmo em trajetos já feito mais de 100 vezes, como entre Navegantes e São Paulo, sempre existe alguma novidade a ser observada. Por exemplo, me impressionei ano passado quando, pela primeira vez, já de noite, deu para observar no distante horizonte, ao mesmo tempo, as luzes de São Paulo ao norte e as luzes de Curitiba a sudoeste do avião, foi impactante.
Noutra ocasião, há muitos anos, peguei um pequeno Bandeirante nesse mesmo trajeto, à noite. Observando nosso posicionamento em relação à conhecidíssima constelação do Cruzeiro do Sul, depois de decolar de Congonhas, estranhei que nossa aeronave não estava voando na direção certa, para Sudoeste, mas, sim, para Sul-Sudeste, indo direto para o mar. Não deu outra, o pequeno avião com capacidade para menos de 20 passageiros, pousou no aeroporto de Santos, para completar o tanque ali, e não no aeroporto de origem, por motivos técnicos.
Numa época de muito olho em telas e pouco olho na paisagem de verdade, a qualidade da percepção ambiental fica prejudicada. No meu caso, se o avião dispõe da telinha no encosto do assento da frente, ótimo, une-se as duas coisas: facilidade de localização em tempo real e a conferência na paisagem real. Tudo, claro, se não houver nuvens abaixo da gente.
Há poucas semanas, decolando de Guarulhos em direção a Manaus, enquanto a maioria dos passageiros ignorava o lado de fora, eu, como de costume, não tirava o olho da paisagem.
Logo de início, impressiona, como sempre, a quantidade de cidades que se avista lá de cima, uma densidade europeia. Mais adiante, as cidades se tornando menos próximas ou frequentes, grandes rios foram avistados, como o rio Grande, que divide São Paulo de Minas ou o rio Paranaíba, que divide Minas de Goiás e Mato Grosso do Sul, os formadores do rio Paraná logo abaixo e seus respectivos gigantescos lagos artificiais formados pelo represamento advindo da construção de barragens em série para produção de hidreletricidade.

Sabendo a velocidade média do nosso Airbus A321, deu para calcular com razoável precisão o tamanho das cidades. Basta fixar o olho num ponto, não se mover nem um milímetro e contar os segundos que demoram para o avião cruzar uma cidade, fazer a regrinha de três e pronto, temos o tamanho da cidade, de ponta a ponta, em quilômetros. Larguras de rios, tamanhos de fragmentos florestais, dentre outros, também podem ser calculados dessa forma.
A diversão ou entretenimento a bordo não para aí. Por sorte, sentado em posição com uma referência fixa a quatro metros de distância (a parte da frente do reator ao meu lado), passamos sobre um aeródromo de terra, desses tantos que existem em muitas cidades do interior e que costumam não ter mais que mil metros de comprimento. Como demorou exatos quatro segundos para cobrir o trajeto correspondente ao comprimento daquela pista, bingo! Deu 900 km/hora.
Nada mal para quem só tem a percepção visual, ao contrário dos pilotos, com sua parafernália de aparelhos de bordo de última geração conectados ao solo e a satélites. Minha rústica e primitiva avaliação diferiu em menos de seis por cento da velocidade de cruzeiro daquele modelo, que é de 850 km/hora. Porém, a velocidade em relação ao solo, numa aeronave, pode variar, dependendo da ocorrência de ventos de cauda ou de frente. Será que naquele 19 de junho deste ano de 2026 haveria um ventinho de cauda, resultando num cálculo de velocidade com quase 100 por cento de exatidão? Vá lá saber!
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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