Para salvar vidas humanas e não humanas, não há crise que não prescinda de um protocolo mínimo de cuidados especiais. Uma situação brutal ou emergencial não pode resultar numa ação corretiva também brutal e apenas reativa. Imagina, cara e preclara leitora e leitor, se no caos dos escombros do terremoto da Venezuela, os tratores e outros maquinários pesados fossem arrebentando tudo o que estivesse pela frente na busca por sobreviventes daquela terrível tragédia.
O resultado, óbvio, seria a morte de muitos sobreviventes que, ao invés de serem salvos, seriam esmagados no ato de remexer os entulhos de forma atabalhoada, grotesca, desorganizada e apressada.
Nas piores situações que se possa imaginar, por exemplo, na mais impiedosa das guerras, feridos tem que ser atendidos com o que se tem à mão, mas, mesmo assim, seguindo procedimentos os mais adequados possíveis, dentro daquele contexto, para amenizar o sofrimento das vítimas que podem ser socorridas.
No caso da prevenção às consequências de possível ameaça de ocorrência de fenômenos climáticos extremos no sul do Brasil, a impressão que se tem é a de que muitos governantes que nunca nem nada preveniram, agora estão metendo os pés pelas mãos, agindo atabalhoadamente, qual pesado trator sobre os escombros do terremoto que, ao invés de contribuir para salvar vidas, acaba matando os sobreviventes que estão ali presos.
Me refiro às obras ditas emergenciais de dragagens e limpezas de rios, córregos e ribeirões. O que se vê, diante de notícias de possíveis chuvaradas mais intensas neste segundo semestre devido a previsão de um “El Niño” mais intenso, é um tratoraço geral, uma destruição indiscriminada do pouco que resta de margens, leitos e demais ambientes aquáticos fluviais.
Primeiramente, como já alertamos várias vezes nestas linhas, há que se agir na prevenção contra assoreamentos e outras formas de obstrução de leitos de cursos d’água. Qualquer caminhante que observe com mais atenção vai perceber que não é de hoje que as margens de nossos rios viraram locais de depósito de restos de poda ou roçadas, descarte de aterros e entulhos, além do lixo ali jogado, sem que se perceba qualquer ação preventiva, corretiva e punitiva das autoridades.
Igualmente, o assoreamento causado pela falta de cuidados preventivos quanto à erosão dos solos tem recebido atenção quase zero de nossas autoridades, sejam municipais, estaduais e mesmo federais.
O resultado disso tudo e muito mais, é a obstrução e diminuição de seção de vazão de praticamente todos os nossos cursos d’água. Os governos erram na falta de gestão e prevenção e erram de novo, na pressa da solução atabalhoada e sem qualquer outro critério que não seja o de mostrar um discutível serviço à comunidade. Serviço malfeito e mal-acabado.
Não se trata de discordar de que algo deve ser feito. Trata-se de discordar de como as coisas têm sido feitas, a começar pela falta de manutenção preventiva, falta de controle de aterros em baixadas alagáveis, importantíssimas para amenização de ondas de cheias, enxurradas e enchentes e falta de critérios de onde depositar o material dragado dos rios.
Já houve quem denunciou que capim e outros vegetais roçados nessas obras emergenciais ficaram jogados ali mesmo no leito dos córregos, indo contribuir com obstrução de tubulações e até de equipamentos de bombeamento de água que serviriam para livrar alguns bairros e localidades de enchentes e enxurradas.
Soa incoerente ver o bom exemplo de Blumenau e região do médio vale passar um dia inteiro discutindo formas de amenizar os danos urbanos à fauna silvestre e ver que tudo isso é esquecido num piscar de olhos, quando máquinas destroem hábitats de milhares de invertebrados, peixes como cascudos e acarás, répteis como cágados e cobras d’água, aves como garças e socós e mamíferos como lontras e cuícas d’água, todos da nossa fauna nativa.
Tudo é devassado pela fúria insana de máquinas, cujos operadores obedecem à fúria insana pior, dos mandantes dessas medidas tão adequadas quanto às do trator que derruba escombros do terremoto, matando de vez os que poderiam ser salvos.
É o poder público conivente com a destruição dos hábitats em tempos de paz e o mesmo poder público que promove o tratoraço irracional em tempos de guerra contra uma situação que ele mesmo ajudou a agravar.
*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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