Na minha adolescência decidi que o primeiro lugar do mundo que gostaria de conhecer seria a Amazônia. Acabou não sendo o primeiro lugar, mas foi um dos primeiros.
Graduado em História Natural – licenciatura na Furb, me tornei um naturalista, hoje uma profissão em extinção, substituída pela Biologia. Depois da especialização em Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, me inscrevi e fui aprovado para cursar o mestrado também em Ecologia no INPA – Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, convênio com a hoje Universidade Federal do Amazonas, em Manaus.
Esta aprovação significou a realização do sonho acalentado 10 anos antes, de conhecer a Amazônia, com a vantagem de ganhar tudo pago pela bolsa de estudos, incluindo as passagens aéreas. Surgiu, porém, um dilema: deixar a namorada aqui, a mais de três mil quilômetros de distância? Resolvemos juntar os trapos, nos casarmos meio que às pressas e lá fomos, Êdela, que acrescentou um Bacca ao seu Werner e eu, para longe de tudo e de todos, rumo ao desconhecido.
Vivi intensamente esse período na Amazônia, onde também foram gestadas as duas primeiras, de três filhos. Novas amizades, de todas as partes do Brasil. Convivência com notórios cientistas, literalmente, de todas as partes do mundo. De norte-americanos a argentinos, de alemães a bangladeses, de ingleses a indianos ou japoneses, eram muito os pesquisadores estrangeiros, num período áureo de apoio governamental para o desenvolvimento da Amazônia calcado no sólido conhecimento científico daquela vasta e única região.
Tivemos também o que havia de melhor de professores brasileiros, selecionados a dedo pelo diretor da época, o internacionalmente respeitado geneticista Warwick Estevam Kerr, brasileiríssimo, ao contrário do que sugere o nome.
Já havia acontecido um encontro de turma 25 anos depois, todos ainda vivos e relativamente jovens. Agora foi a vez do encontro dos 50 anos, neste mês passado de junho de 2026. Daquela turma de 12 alunos do mestrado, agora todos idosos, três já faleceram e três conseguiram participar se deslocando até Manaus. Foi muito bom também rever velhos amigos que ainda moram por lá e o local onde estudamos e moramos. Sim, na década de 1970 ainda havia a opção de morar dentro do oásis que era o próprio Campus do Inpa, na capital do Amazonas, que conhecemos com 400 mil e hoje tem mais de dois milhões de habitantes!
Ponto alto deste encontro dos 50 anos da primeira turma de pós-graduação em Ecologia na Amazônia Brasileira foi poder refazer grande parte de uma expedição acontecida durante 11 dias em 1977. Na ocasião, navegando rio Negro acima, cruzamos os cerca de 160 quilômetros do gigantesco arquipélago fluvial das Anavilhanas e adentramos por cerca de 200 quilômetros o plácido rio Jaú, afluente da margem esquerda do Negro.

Daquela expedição fluvial de 49 anos atrás resultou um relatório feito pelos alunos que foi determinante para a criação, já anteriormente apenas aventada no então IBDF, do Parque Nacional do Jaú no estado do Amazonas. Este Parque Nacional foi, por 22 anos, o maior Parque Nacional brasileiro até ser criado, em 2002 o maior de todos, o Parque Nacional Montanhas de Tumucumaque, no Amapá.
Jaú agora é o segundo maior Parque Nacional brasileiro, com mais de 2,3 milhões de hectares de área. Para se ter uma ideia, nele caberiam 41 Parques Nacionais da Serra do Itajaí que fica em Santa Catarina. Um tamanho de Unidade de Conservação só ainda viável na Amazônia e em nenhum outro lugar de um Brasil que já converteu gigantescas áreas de sua natureza original para uso humano.
Ter tido a oportunidade de novamente singrar as águas cor de chá preto do rio Negro, avançar 160 quilômetros pelos labirínticos inúmeros canais do arquipélago das Anavilhanas (hoje também um maravilhoso Parque Nacional) por horas a fio e, dependendo da rota, sem ver sinal de viva alma humana a não ser a dos colegas a bordo – o potiguar-mineiro Mario Dantas e o carioca Ronaldo de Almeida e respectivas esposas Célia e Marlene e a pequena tripulação e rever uma enorme Unidade de Conservação que ajudamos a criar foi por demais gratificante.

Rever a paisagem tanto desocupada como a habitada e adentrar mais uma vez o Jaú, agora acompanhado daquela que acrescentou Bacca ao seu Werner e assim continua até hoje e que em 1977 ficara sozinha em casa em Manaus e lembrar que todo o vale do Jaú e arredores agora é um Parque Nacional que ajudamos a concretizar e salvar do desmatamento gerou, naturalmente, um turbilhão de emoções.
Quarenta e nove anos depois, de pé na proa do convés superior e devorando a paisagem com os olhos à medida que o Harriet II avançava pelos primeiros quilômetros do Jaú, chorei.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista
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