Sábado, Junho 20, 2026
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Esperança para a fauna silvestre

Por Lauro Bacca*

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Como já escrevi em outras ocasiões, por muitas centenas de milhares de anos, nossa fauna nativa viveu relativamente numa paz que jamais foi uma paz perfeita. Sempre havia o perigo de um predador, que, por sua vez, precisava matar para matar a fome sua e de seus filhotes. Havia tempos bons e tempos difíceis, calor, frio, chuva, seca, eventual fome por escassez de alimentos e sempre eles, os parasitas e predadores. Fora as intermináveis disputas por território, recursos e, dentro da mesma espécie, lutas internas como, por exemplo, machos disputando fêmeas.

De uns poucos milhares de anos para cá, um bicho novo saiu da mãe África, se espalhou pelo mundo quase sempre a pé e chegou também aqui nas Américas. Diferente de todos os demais, de perfeito andar ereto, um macaco nu, despido da densa pelagem que caracteriza quase todos os mamíferos, consumia muita carne em sua dieta. Era um novo e hábil predador. Armado de lanças, flechas e inteligência, caçando também em grupos, superava a capacidade de abate de todos os demais predadores que já haviam por aqui.

Em questão de poucos séculos, ou seja, num piscar de olhos num tempo geológico que é contado em muitos milhões de anos, essa nova espécie conseguiu extinguir várias de suas presas, geralmente as de maior tamanho, eliminando das Américas uma fauna de gigantes que em nada perdia para o que ainda hoje se vê na África, de onde todos nós somos originários.

Bem mais recentemente, não mais a pé, mas, em caravelas que cruzaram os oceanos e não mais nus e sim vestidos, chegaram outros indivíduos da mesma espécie, porém com índole e poder de exterminação muitíssimo maior do que aqueles superpredadores que chegaram a pé antes. Agora, mais que superpredadores, foi a vez dos super-depredadores.

O ainda muito que havia restado de natureza foi rapidamente destruído. Biomas inteiros, como a Mata Atlântica, foram quase dizimados e, junto com ele, a maioria das espécies da fauna, flora e funga (fungos). Nos pequenos fragmentos isolados de florestas e demais ecossistemas naturais que restaram, a caça criminosa, irresponsável e inconsequente tem quase que dado o tiro de misericórdia no que conseguiu sobreviver.

Os bichos que escapam da caça correm grande risco de serem atropelados aos milhares na malha viária cada vez mais densa, chocarem contra superfícies espelhadas (aves), envenenados por agrotóxicos das lavouras, sofrerem ataques de cães e gatos domésticos que se proliferaram aos milhões por aí, além de contaminarem com zoonoses os bichos nativos. Ou eletrocutados em fiação elétrica, caso de macacos e várias outras espécies.

Numa situação terrível dessas, qualquer iniciativa que vise amenizar tamanho genocídio zoológico é sempre bem-vinda. Foi o caso do I Fórum de Fauna Silvestre do Médio Vale, acontecido no último dia 16 deste junho de 2026 em Blumenau. Secretarias municipais de Meio Ambiente, Ministério Público Estadual, Universidade Furb com suas pesquisas e hospital veterinário, Polícia Militar Ambiental, Parque Nacional da Serra do Itajaí, Ibama, IMA, Vigilância epidemiológica e até a Celesc estiveram presentes.

Da instalação de passa-faunas aéreos e subterrâneos para diminuir os atropelamentos passando pela continuada repressão ao criminoso hábito da caça até técnicas simples de inibir joões-de-barro de construírem suas casas muito próximas a cruzetas dos postes de alta-tensão elétrica, todos deram seu recado, demonstrando que muito pode ser feito com relativos poucos recursos.

Com cada um agindo e interagindo nas respectivas competências, o Fórum atingiu seu objetivo que não para por aqui, deve prosseguir sempre, com união de esforços de todos. Saí de lá satisfeito com esse sinal dos tempos e renovação da esperança de que ainda é possível salvar e recuperar nossa tão depauperada fauna, que poderá voltar a viver em grande número, repovoando nossas florestas vazias e enchendo-as novamente de vida e movimento que sempre tiveram … antes da chegada de nós, os predadores e os super-depredadores.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

Leia outros textos do autor aqui.

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Redação
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