Uma pesquisa desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional da Furb revelou que os imigrantes que vieram para o Vale do Itajaí estão mais expostos a riscos socioambientais. O estudo, que investigou como os desastres ambientais recorrentes afetam os moradores que deixaram seus países para viver na região, apontou falta de políticas integradas de acolhimento, habitação, prevenção de riscos e resposta aos desastres, entre os fatores que ajudam a explicar esse cenário.
O estudo foi conduzido pela pesquisadora Luiza Oechsler, Mestre em Desenvolvimento Regional, sob orientação de Marcos Antônio Mattedi, Doutor em Ciências Sociais, e co-orientação de Maria Roseli Rossi, Doutora em Desenvolvimento Regional.
Partindo da percepção de que imigrantes ocupam majoritariamente áreas mais suscetíveis a enchentes e deslizamentos, a pesquisadora analisou a relação entre desastres naturais e a segurança habitacional dos imigrantes. Para isso, mapeou fluxos migratórios e vulnerabilidades iniciais dos imigrantes da região e examinou o modo como enchentes e deslizamentos impactam diretamente a moradia e as condições de vida. Além disso, o estudo avaliou políticas públicas de habitação e assistência para identificar avanços e lacunas no atendimento aos imigrantes.
A pesquisadora estudou os casos de Blumenau, Brusque e Itajaí por meio de entrevistas com imigrantes afetados, autoridades, técnicos da Defesa Civil e especialistas em desastres. O estudo se baseou, ainda, em análise documental e estatística de dados produzidos por órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e Defesa Civil, além do mapeamento de áreas vulneráveis por meio de dados ambientais.
Um dos principais achados do estudo foi a dificuldade de acesso dos imigrantes a informações sobre desastres e sobre o que fazer em emergências. “São pessoas que chegam aqui buscando melhores condições de vida, trabalho e moradia, mas chegam sem saber desses desastres e acabam enfrentando uma dupla vulnerabilidade. Quando os desastres acontecem, elas são novamente afetadas e colocadas numa situação ainda maior de vulnerabilidade”, ressalta a pesquisadora.
A barreira linguística, a falta de documentação e a informalidade no trabalho agravam ainda mais esse cenário. “Essas informações não são repassadas, por exemplo, em língua francesa ou crioulo, que é a língua que os haitianos falam. Faltam pessoas nos espaços públicos que consigam atender essas pessoas nos seus idiomas, com esse outro tipo de olhar. Os próprios imigrantes que já dominam o português acabam assessorando os outros que vão buscar atendimento”, relata a pesquisadora.
As entrevistas com os imigrantes, sobretudo haitianos e venezuelanos, revelaram que o receio de perder suas fontes de renda é, muitas vezes, maior do que perder a moradia. “A preocupação central desses imigrantes aqui é mudar a qualidade de vida, ter um trabalho melhor, uma renda melhor. Muitos têm família no Brasil, mas ainda têm outras pessoas que moram no seu país de origem. Então, a preocupação central era como ter dinheiro para enviar para a família”, conta. Outro ponto evidenciado pelo estudo é a fragmentação das políticas públicas. Para a pesquisadora, a integração insuficiente entre a Defesa Civil e as políticas sociais dificultam o atendimento efetivo às populações vulneráveis.
O estudo reconhece que existem programas de habitação social em nível federal e estadual, mas há dificuldades para incluir imigrantes. Apesar das dificuldades, a pesquisadora identificou a existência de estratégias de resiliência comunitária entre os imigrantes, como redes de apoio, cuidado coletivo e organizações formandas pelos próprios imigrantes.






