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Onde cachorros e gatos não são bem-vindos

Por Lauro Bacca*

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A presença de carnívoros domésticos, como cães e gatos em Unidades de Conservação da Natureza é um dos problemas mais críticos e desafiadores enfrentados por gestores ambientais e cientistas. O impacto varia desde parques nacionais urbanos até reservas isoladas, responde corretamente a consulta na internet.

Falo também por experiência própria. Há 36 anos que eu e a esposa preservamos rigorosamente, até onde isso é possível, nossa propriedade de quase 83 hectares em Blumenau, que há 34 anos está reconhecida oficialmente pelo governo federal como RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural. Passado o primeiro período de localização e eliminação de armadilhas e acampamentos para caça, nossa maior dor de cabeça passou a ser a indesejável presença de cães e gatos domésticos na Reserva.

Gosto muito de cachorros, mas eles ali não são bem-vindos. Armadilhas fotográficas registraram a fauna durante longos períodos, mas, flagraram, também, a indesejável presença de cães. Percebemos que depois da passagem dos cães a fauna demorava para retornar para diante das câmeras, mas, não tínhamos elementos suficientes para fazer dessa afirmação uma constatação científica.

Qualquer um que pesquisar na literatura especializada verá que os cães podem ser melhores amigos do homem, mas, são terríveis inimigos da natureza. Onze espécies de animais silvestres já desapareceram do planeta por causa da invasão dos cães levados pelos humanos a todos os cantos da Terra. Apesar desse fato, parece que isso é totalmente ignorado, ou não levado na devida conta por boa parcela dos protetores da causa animal, para os quais, aos totós e bichanos tudo, mas à fauna silvestre, nada. É como se ela não existisse.

Na nossa RPPN Reserva Bugerkopf, vários cervídeos (veados-do-mato) morreram de exaustão e ataque do coração depois de horas sendo perseguidos por inocentes cãezinhos de estimação que não são devidamente controlados pelos seus desleixados donos. Nossos cachorros, muito úteis como sentinelas de segurança, ficam confinados em cercado ao redor da casa. Certo dia um deles fugiu acidentalmente (coisa rara, pois cuidamos muito para que isso não aconteça) e logo o encontramos com o corpo inteiro enfiado numa toca, tentando meter os dentes no dono da moradia, o tatú que estava lá dentro.

Cachorros errantes ou que dão suas escapadas para a natureza, assim como os gatos, não apenas matam milhões de animais silvestres todos os anos, mas, também, afugentam a fauna indiretamente, pelo simples rastro de cheiro de sua presença e das fezes e urina que deixam no ambiente natural. Esse problema se agrava tanto mais quanto mais próximo é uma Unidade de Conservação de assentamentos humanos ou urbanização. Fora a competição por alimento e as doenças que podem transmitir para a fauna silvestre.

No Parque Nacional da Tijuca, cuja floresta é cercada pela cidade do Rio de Janeiro, o projeto de reintrodução de animais silvestres, como cutias, sofreu prejuízos devido à presença ali, do melhor amigo do homem, mas, inimigo da preservação. Na minha Blumenau, cães (e gatos) incomodam no Parque Natural Municipal São Francisco de Assis, em pleno Centro da Cidade.

Até mesmo na Amazônia os totós soltos ou abandonados já causam terríveis impactos, principalmente, quando a presença humana fica próxima de Unidades de Conservação, como Parques Nacionais e reservas semelhantes. Foi o caso da Reserva Ducke que está cada vez mais envolvida pelo vertiginoso e em grande parte descontrolado crescimento de Manaus

Visitamos, extasiados, a Reserva Ducke em junho último deste ano de 2026 (vide “A Reserva Ducke, 50 anos depois” aqui publicado há 8 dias). Depois de uns dois quilômetros de trilhas sem ver fauna nenhuma, já na saída, nos deparamos com um simpático caxinguelê, que muitos chamam de esquilo, que parecia querer descer de uma árvore, já próximo à saída do Jardim Botânico, inserido na Reserva.

Ao tentar fotografar o ágil bichinho, percebi a presença de três cachorros em total expectativa e comportamento de tocaia, olhos fixos e prontos para o ataque, caso o caxinguelê desse um simples pulo para o chão. Um zelador ali perto nos informou que a presença de cães naquele lugar que deveria ser só de natureza tinha virado praga. Vinham da cidade ali encostada e pior: com ruas e avenidas correndo junto aos limites da Reserva Ducke/ Jardim Botânico, transformou-se local fácil de “desova” de cães e gatos indesejados pelos seus irresponsáveis donos.

Enquanto esse problema não for sanado, o lugar que deveria ser o melhor santuário da natureza, uma amostra do que é a incrível Floresta Amazônica facilmente acessível bem junto a Manaus, tem se transformado numa linda trilha numa belíssima floresta, porém, floresta vazia. Vazia de fauna silvestre e cheia de cachorros, alguns doentes, com sarna, provavelmente com verminoses e o que mais imaginarmos de pior, se multiplicando, não apenas pelo fato de o local ter se transformado em descarte de totós indesejados. Uma das cadelas parecia estar amamentando uma ninhada. Me disseram que o problema é insolúvel. Não concordo.

*Lauro Eduardo Bacca é naturalista e ambientalista

O conteúdo desta publicação é de responsabilidade do autor.

Leia outros textos do autor aqui.

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Redação
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